Uma homenagem… • 03.08.10
Hoje, no Dia Internacional da Mulher, uma homenagem sui generis, mas muito especial.
Minha avó morreu. Já faz mais de uma semana que recebi a notícia. Não há nenhuma forma amena de se receber a revelação de que uma pessoa que você tanto ama se foi deste mundo, sem que haja lágrimas, uma pressão no peito, um embrulho no estômago e uma vontade imensa de estar, nem que seja mais alguns minutos com esta pessoa e dizer-lhe, no mínimo, que a ama. Mas isso não é mais possível. Ela já foi para o mundo onde tudo é desconhecido e só o que podemos pensar é que sua alma está reconfortada, alegre e feliz junto de Deus.
Não fui ao seu velório, nem ao seu enterro. Não vi seu corpo inerte. Ela não morava aqui e não me foi possível viajar para estar junto aos meus parentes para a última leitura de sua biografia. No entanto, no emaranhado de tanta tristeza que me afligia, fiquei feliz pela vida tê-la posto junto a mim. Por todas as lembranças que tenho e poderei carregar comigo por toda a minha existência.
Minha avó foi uma das maiores responsáveis pelo meu gosto por histórias, minha veia poética, foi quem me deu meu primeiro livro de poesias e, quando vinha nos visitar, durante minha infância, não havia uma noite sequer que não contasse estórias inventadas por ela ininterruptamente até que eu adormecesse. Mesmo que eu pedisse uma estória clássica, ela sempre dava um jeitinho de deixá-la mais interessante, de aumentar um detalhe inóspito, de carregar de minúcias que faziam com que minha imaginação viajasse por lugares antes inimagináveis. Havia poesias que ela sabia cantar. E as cantarolava para mim enquanto me servia o café com leite - sua bebida favorita.
Mesmo depois que cresci, jamais deixou de me perguntar se eu estava me alimentando direito e como estava o tempo em Curitiba. Perguntava-me e realmente se preocupava com minha saúde. Dava-me bons e sábios conselhos. Tenho dezenas de cartões de aniversário, Páscoa e Natal. Jamais falhou em nenhuma ocasião.
Ela dedicou sua vida à leitura, aos bordados, à religião, às suas caminhadas diárias – principalmente se tinha sol [ela, assim como eu, amava o sol], mas, muito mais do que isso, sua vida era dedicada a cuidar de seu filho com Síndrome de Down. Meu tio, hoje com 47 anos, foi sempre o alvo de suas atenções, cuidado com muito carinho, está muito além da faixa etária máxima a que chegam os portadores da síndrome, pois a dedicação da minha avó tornou-o um ser forte, ativo e saudável.
Acima de tudo e todos, ela foi uma mulher guerreira. Lembro-me que sempre conseguia muitas coisas enviando cartas ou indo falar com os responsáveis. Só pra ilustrar, certa ocasião, quando sua geladeira [Frigidaire – dos anos 40] vermelha, que havia ganhado de casamento, estava quase virando sucata, resolveu que como não tinha dinheiro para mandar restaurar e arrumar, precisava tomar uma atitude. Enviou uma carta à fábrica e contou sua história. Resultado: ganhou toda a restauração e conserto da geladeira e a fábrica estava feliz em poder ajudá-la, pois aquela Frigidaire era uma verdadeira relíquia! – Ela foi, sem dúvida alguma, um grande exemplo pra mim de alguém que vai à luta do que quer.
Acredito que ela tenha cumprido sua missão. E, sempre que alguém cumpre sua missão, vai para os braços de Deus. Ela me deixou a saudade. E deixou muito de sua herança no que sou, no alguém que me tornei. Obrigada, dona Martha, por ter me proporcionado tanta alegria e me ensinado tanto! Obrigada pelas lembranças maravilhosas que me ajudarão nos dias em que a saudade for quase insuportável. São elas que me ajudarão a dar muito mais valor à vida!
Feliz Dia Internacional da Mulher a todas nós. E não se esqueçam de aproveitar todos os momentos ao lado das mulheres maravilhosas que fazem parte da vida de vocês! Beijocas estaladas! Sejam felizes!










