Vende-se Tudo • 09.05.10
Passo pelas pessoas e dou BOM DIA, ofertando um de meus sorrisos! Algumas me respondem com um balançar de cabeça, outras respondem o bom dia secamente, raramente uma sorri de volta e muitas nem respondem.
Fico imaginando se a reação seria apenas mal humor matutino ou se elas carregam os problemas da vida tão estampados em seus corpos que as fazem deixar escapar a alegria de viver.
Tenho problemas. Muitos. Todos temos nosso inferno particular. Acredito que muitas pessoas têm o costume de olhar os outros e invejar suas vidas, imaginando-as ausentes de problemas. Mas o fato é que a maneira de encarar os problemas é que faz toda a diferença.
A partir do momento em que você se coloca em posição de vítima da situação, realmente será muito mais difícil sobreviver aos percalços.
Existe um ditado antigo que escutei muitas vezes e acredito que todos já ouviram: a cruz não é maior do que você pode carregar. E é uma verdade.
A partir do momento em que você toma consciência de que é forte o bastante, de que pode suportar e de que VOCÊ É MAIOR DO QUE SEU PROBLEMA, ele passará a ser apenas uma parte da sua vida a ser administrada e, a partir deste momento, você estará pronto para fazer um plano para eliminá-lo. Enquanto isto não acontecer, por pequeno ou grande que ele seja, poderá continuar vivendo, sendo feliz, sendo você mesmo, pois ele não poderá mais influenciá-lo.
Pense nisso. Pense na forma como está lidando com seus problemas, na maneira como está acordando e indo dormir com seus problemas. No tanto que influenciam seus pensamentos.
E, pra hoje, compartilho um texto de Martha Medeiros que é simplesmente fantástico! Beijos no coração e bom feriado!
Vende-se Tudo
Martha Medeiros
No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento.
Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.
Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.
Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados
no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convidava para subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas.
Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.
No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tv. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros..
Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.
Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida… Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.
Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.
… só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir.











